edição 22 | novembro de 2007
tema livre ou diadorim

 

prato cor-de-rosa e folhas verdes*
silvana guimarães
   

A última coisa que Francisca G. viu na vida foi um repolho roxo. Ela ainda o vê, envolto em sombras, na lembrança daquele dia em que fez a sua primeira mágica. Estava na horta da casa, escolhendo verduras para a salada do almoço. Juntava no avental pés de alface coloridos, rúcula, aipo, broto de alfafa, acelga, calêndulas e begônias. Foi quando olhou para o repolho, suas folhas enoveladas, o corpo de Hodja Ulas imiscuindo-se no seu corpo ingênuo. As suas pernas emaranhadas nas pernas dele. A noite passada. A sarabanda da suíte nº 1 de Bach. O sofá grená. A eternidade, agora. O sono vitorioso do turco a murmurar o nome de Francisca B.

 

Então ele pensava que dormia com sua irmã. No meio da bebedeira, confundira as duas. O Tempo é o Senhor da loucura. As folhas do repolho enoveladas. Umas embrulhando as outras. Nunca mais quero enxergar o incontestável. Nunca mais quero enxergar, ela confirmou em voz alta. O fogo-fátuo. O repolho. A cegueira. Que ninguém reparou. Que ela não apregoou. Como se fosse um sintoma descrito no Malleus Maleficarum. Com medo de se afogar na fogueira.

 

Quando sua barriga começou a crescer, Francisca G. lamentou que o filho de Hodja Ulas fosse uma menina. Francisca B., naquela ocasião, estreava um novo modo de olhar, livre de toda a inocência que há no mundo. Entre suas pálpebras, haveria para sempre um adeus implícito. E até Ulisses, diante do seu decote, afrouxaria o nó da gravata que o prendia ao mastro.

 

Quando Luciana, a filha do açougueiro Otto, apareceu morta no Beco dos Goyas, o pescoço atravessado pela navalha, Francisca G. decretou que a filha viveria para sempre dentro dela.

 

Outra criança que não veria um país como este.

 

Sua pátria, filhinha, são as nuvens. As nuvens. Francisca G. alisa o ventre de lua cheia, onde a pequena engatinha. Olhando para a solidão das costas de Hodja Ulas no terraço do Hotel Sunset Boulevard, ela calcula que a menina teria agora nove anos, se não lhe houvesse negado a luz.

 

 

*Trecho de uma história mais comprida.

 

3 poemas
valéria tarelho
   

à francesa

 

1

 

nada sei

a não ser

do seio

do nada

 

: nódoa

que detona

tecidos

 

: nódulo

no dedo [médio]

do tédio

 

nada

nas mamas

calejadas

da poesia

 

ainda encontro a cura

 

seja na bula

na bíblia

na cabala

 

uma fuga

na bala

na agulha

 

 

2

 

nada sou/

serei

a não ser

um sopro de

savoir-faire

 

: adega

— demi-sec —

do saber

 

: adaga

— cega —

da sabedoria

 

nada

na língua

flácida

da poesia

 

ainda acho abrigo

 

seja nos livros

nos discos

nos vídeos

 

alguma verdade

na vaidade

no vício

 

 

3

 

nada sei

além do que

não paira

mínima

dúvida

 

: tudo enfim

finda

em nada

 

ainda resta uma saída

 

 

 

ego

 

eis-me aqui

diante do espelho:

um nonsense

 

face

&

disfarce

 

eis-me aqui

um contra-senso

 

reflexo

&

avesso

 

eis-me aqui

ante meus versos:

uma antítese

 

imagem

&

miragem

 

a bem da verdade

reconheço o que viso:

 

um oásis de vaidade

pregando no deserto

 

eis-me aqui:

 

narciso

&

eco

 

 

 

metástase

 

este êxtase

que me tira

a sanidade

é razoável

mentira

 

p o e s i a

:

meias-verdades

fraudes quase

com ênfase

nas frases

(pseudo)feitas

 

febre

que quando não ferve

fibrila

 

fabrica

o que nem sempre fui

forja o que não foi

sequer idéia

 

chinatown
virna teixeira

da bolsa de mão deixa cair a arma

a dupla identidade da assassina

 

suspense na sala de espelho

disparos na sombra, estilhaços

 

'em shanghai é preciso mais que sorte'

 

na costa do atlântico

um vórtice de tubarões feridos

tinge de sangue o oceano

 

o sol evanesce no poente

 

 

 

 

 

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