edição 18 | julho de 2007
em nome da mãe

 

oração por minhas filhas
roberta silva 

 

 

Carregar a fina louça

nas trevas por essa trilha:

eu, que sou tão tosca

e que delas pareço filha.

 

Pai! Apiedai-vos de mim,

delas, de nós.

Endireita o que eu caminhar torto

e quando eu for ventania,

sede Vós, para elas, o porto.

 

a balada do fogo azul
romina conti

As velas nem aquecem as vendas dos fabricantes de velas era o que eu ouvia quando a minha mãe sorria olhando o infinito. Antes muito tempo fora daquele tempo em que eu havia narrado anteriormente, este em que a minha mãe olhava o infinito, minha mãe usou quase que uma caixa de fósforos inteira para acender aquela vela a São Caetano. Aquele santo fora capaz de modificar a vida da mulher do Trindade, ela recebeu muitas graças inclusive o filho pequeno que dormia que roncava baixinho feito um carneirinho. Também Luzia, outra vizinha, havia conseguido ganhar um rádio na rifa, que naquele exato momento tocava uma canção triste, mas alegre com tudo que a vida pode ter de mais dicotômico. O Armando era o mais contente e havia ampliado a sua fábrica de velas. E assim poderia citar mais umas cinqüenta pessoas que morreram no incêndio provocado pela minha mãe naquele dia. São Caetano... São Caetano!

 

 

 

merda
santa maria

Até as merdas precisam de tronos.

 

Merda. Em algum lugar da merda da minha bolsa deve ter um isqueiro. Sou capaz de jurar por qualquer merda que tem. Por que merda nunca acho o fogo? Merda de vício. Odeio fumar. Já prometi quatro mil e quinhentas vezes para mim mesma que não usaria mais esse sapato. Odeio sapatos baixos. Foda-se. Dizem que cigarro envelhece. Envelhecer é a grande merda da vida. Está olhando o quê, seu merda? Merda de rua que nunca acaba. Será que vale a pena trocar aquele vestido? Aquela vendedora de merda me deixou pilhada. Odeio gente que fala demais. Quem fala muito, fala merda. Aliás, odeio merda. Sabia que esse batom cor de merda não ia combinar comigo. Ui. Uma barata. Inseto nojento de merda. Baratas parecem que vivem só para assustar a gente. Têm prazer disso. E saem do esgoto. Do meio da merda repugnante. Se bem que a vida lá embaixo deve ser bem menos merda que aqui. Estou me sentindo tão repugnante. Repugnante é uma palavra de merda. Comprida demais. Odeio palavras compridas. Esquerda ou direita? Merda de dúvida. Memória de merda que tenho. Nem consegui me maquiar direito. Daqui a pouco escurece. Se chover de novo corto meus pulsos. Uma nota esse cabeleireiro. Espero que a merda da empregada leia o recado sobre a pia. Empregadas são umas merdas. Algumas merdas são tão necessárias na vida da gente. Até a merda que a gente caga é necessária na nossa vida. Imagina bem. Se não cagássemos a merda não sairia e incharíamos tanto que explodiríamos merda para todos os lados. Aliás, a merda é capitalista. Uma grande empresa, esse negócio de merda. A companhia de água não ganharia tanto dinheiro com as descargas que damos nas privadas para a merda ir embora. E nem os fabricantes de vasos sanitários existiriam e enriqueceriam. Até as merdas precisam de tronos exclusivos para elas. Ironia de merda. Acho que já está chegando. Obrigada, Deus. Dia de merda hoje. Tem aquele jantar mais tarde. Ah, e ainda tem as empresas de papel-higiênico que faturam horrores com as merdas que limpamos das nossas bundas. Nem o cu ia ter função se Deus não tivesse criado a merda. Acho que a merda é o grande segredo da existência humana. As comidas caríssimas dos supermercados viram merdas. Há órgãos só para construírem merdas. Reparou? Assim como os intestinos delgados e retos e sei lá mais qual. Essa tripalhada toda que faz a merda dentro da gente. Merda é uma obra de arte criada pelo cu. É uma fala do corpo. Uma escultura natural. Veja as formas e curvas da merda. Um primor de originalidade. Qual deve ser o gosto da merda? Nunca tinha pensado nisso. Merda de merda. Ai. Que susto agora. Ódio. Pensei que estava sendo seguida. Uma merda de um estuprador. Só falta. Só uma merda de uma louca como eu pra se enfiar nessa rua deserta de merda num subúrbio tão fedido desses. A merda é que não tive escolha. Ia fazer o quê? Jogar no lixo? Jogar na descarga? Procurar um lugar no centro? E se desse alguma merda e fosse presa? Eu presa. Ou morrer. Não sei qual merda pior. Morrer ou ser presa. E ainda tem as farmácias que vendem aqueles batalhões de remédios para todos os tipos de merdas. Para cagar. Para não cagar. Para cagar muito. Para cagar pouco. Para cagar mais ou menos. Que merda. Sai, nuvem negra. Sai, nuvem negra. Merda de nuvem. Deus, por favor, não permita que chova. Quem está me ligando? Essa merda sempre toca na pior hora. Ih. É aquele merda. Só me liga quando não posso falar. E ainda diz que me ama. Odeio homem que diz que ama. Taí uma merda que não serve para nada. Nem para foder direito. Tem homem que deve comer merda desde que nasce. A mãe deve misturar merda na papinha dele e dar colherada em forma de aviãozinho. E dizer olha a merda chegando. Abre a boquinha e fecha os olhinhos. Meu merdinha lindo e fofo da mamãe. Num é possível. Se a merda do vento não parar de bagunçar meu cabelo vou desistir. Odeio qualquer coisa que ameace tirar minha liberdade. Ai, como eu sou horrível. Minha manicure está grávida de cinco meses. Mais uma merda na vida dela. Trinta anos de vida e nem sonho em casar e ter filhos. E tome Rivotril. E tome Prosac. E tome Coscarque. E tome uísque. Merda de querer acalmar os nervos e emagrecer. E ser linda. E ser rica. E famosa. E querer fazer de conta que está tudo bem. Dá pra ser tudo isso ao mesmo tempo? Preciso trocar a cor do meu cabelo. Loiro vai combinar mais com aquele trabalho na praia. Agora. Acho que é aqui. Ufa. Cheguei nessa merda. Odeio esse lugar. Não vejo a hora de voltar. Marquei as fotos para daqui a uma hora. Vai chover mesmo. Já estou atrasada. Tudo o que eu quero é resolver e ir embora logo. Pensei tanto em merda que preciso de um banheiro urgente. Um banheiro, por favor. Merda. Odeio sentir dor de barriga de ansiedade. Deve ser aqui mesmo. Estou recordando a casa. Odeio cachorros. Pelo menos o endereço bate. Merda de fim de mundo. Tem uma moça lá na recepção. Oi. Tudo bem? Claro. Lembra de mim? Engraçado que também não lembro de você. Que merda foda. Não marquei hora não. Espero. Garotinha feia de merda. Não lembra ou não quer lembrar? Deve ter meu nome aí em qualquer lugar. Não está reconhecendo meu rosto? Ou fingindo que não reconhece? Inveja é foda. E nem sabe falar direito. Merda. Vai demorar muito? Paguei em cheque. Especial, sim. Fiz com vocês. Juro. Por que eu mentira? Causar problemas é o caralho. Estava demorando para me meter em alguma merda. Não. Pensei alto. Tudo bem. Fiz aqui com vocês semana passada. Era uma doutora gorda. O pai? O que interessa quem era o pai? Isso é um problema meu. Entende? Entende uma merda. Você é alguém na sua vida? Você já foi bonita? Alguém já comeu você? Você já chorou sozinha à noite? Já pensou em se matar? Estou calma, filhinha. Desculpe. É que ando num merdalhal só. Queria tudo de volta, entende? Quero alguma coisa que seja meu. Meu filho que paguei para vocês arrancarem. Por quê? Porque quero devorá-lo no jantar, sua idiota. E depois ele vai virar merda dentro de mim. Eu não estou chorando. Lá fora é que está chovendo. Eu só quero voltar atrás. Porque eu sou sozinha. Porque sinto falta. E tenho medo. Muito medo. Descobri que é importante para mim. Tarde demais? Impossível é a sua cara de bosta. Sua merda. O que você está olhando? Pára de rir, filha da puta de merda. Nunca sentiu dor na vida? Merda. Merda. Merda. Mil vezes. Estava tão no comecinho ainda. Depois dou um autógrafo, sim. Meu filho foi pra lixeira no meio da merda? Merda deve ser é sua vida. Feia e pobre. Meu nome? Bem. Pode me chamar de merda. Dona merda.

 

 

 

 

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