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edição 26
| maio de
2008
(participação
especial de manuel bandeira)
Querido
Francisco, onde estiver Sua
lembrança entra com o vento frio pela janela e vai me doendo toda. É
sempre assim quando inverna e você vem. Lembra daquilo? Nosso amor feito
de todas as paixões, de todos os silêncios, de todos os sons? Lembra?
Lembra de mim? Era nós dois ardendo no fogo do inverno. Noite amanhecendo
dia anoitecendo a gente se invernando um no outro se embolando eu por cima
eu por baixo eu de lado do outro lado tão misturado que eu nem sei onde eu
começo nem onde você acaba ah eu sei você acabava era em mim ai em mim. Ai
de mim, que à essa altura da vida dei pra filosofar em vez de ir à reza,
cuidar da família e levar vida certa. Custosa que sou de entender, fui
inventar de aprender que tem gente que sofre é de lembrança, pensando que
sofre de saudade. Saudade a gente tem é do que não aconteceu. No carnaval
de 1986, Tia Zeca — que Deus a tenha! — afirmava em tom solene "carnaval
bom é no Rio de Janeiro, estive lá em 1915". Coitadinha da Tia Zeca,
sofria de lembrança antiga, coitada de mim, tão nova ainda, estou morrendo
de lembrança. Com saudade de você amanhã, depois de amanhã, no mês que
vem, no próximo Natal, naquela viagem do outro ano que a gente combinou.
Porque a gente combinava e tanto. E tanto a gente pecava enroscado naquele
inverno. Fala que você é só minha fala fala de quem você é sou sua só sua
toda sua de mais ninguém eu vou vou ai. Aí a andorinha lá fora está dizendo: —
"Passei o dia à toa, à toa!" e a gente nem ouviu. Tem gente que vai
custar a compreender que a lembrança alucina tanto quanto a saudade,
porque lembrança a gente guarda, fica arranhando aqui dentro. Dois olhos
cegos enxergando o invisível. Você me falta. Faz muita falta. Por isso, andorinha, andorinha, minha cantiga é
mais triste! Passei a vida à toa à toa. E ainda está pra existir
alguém que consiga imaginar um modo de curar a lembrança, a gente sentindo
tanta precisão daquilo. Viu, Riobaldo? O demônio existe sim e daqui a
pouco ele vem me pegar pra fazer mingau au au. Que moça séria, temente a
Deus, não fica se perdendo nessas idéias de mal proceder. Invocando
inebriada invernos indecentes inesquecíveis. Nem tanta querença de você,
dono de todas as coisas que não me escaparam. No mais, está fazendo muito
frio e eu, doida varrida sozinha, estou sofrendo baby baby. Nunca mais
acorrentada no seu calcanhar, desde quando outro anjo maldito disse amém.
Sem mais nem menos. Sem mais, não mais.
Da
sua Lindalva (inverno, 1998)
o pote, oco de tudo Seu
destino era o casebre no alto da colina azul, que todos conheciam por
rosa, e descobrir o segredo que a velha guardava em um pote, que todos
pensavam ser uma enorme laranja. Saiu com essa missão gravada no fundo do
peito, patuá no pescoço, pé de coelho no bolso, uma figa nos tornozelos,
uma bolsa cheia de bolachas, um rádio velho que funcionava a pilhas, e a
manta que a cobria desde bebê nas noites frias. Ninguém a encarregara de
tal propósito, ele nascera da visão do quadro que via ao acordar, de sua
janela, ao longe, no topo da colina, o casebre cercado por árvores, a
fumaça saindo de sua chaminé à tarde, fabricando névoa. Ninguém possuía as
mesmas desconfianças que ela, ninguém percebia como os bichos se ouriçavam
quando a velha passava com seu cesto de cravos para a feira. Somente seus
sentidos captavam o cheiro de mal que saía de seus vestidos coloridos, o
visco que escorria de suas mãos quentes e delicadas, o vento que agitava
as árvores. Quando os pássaros fechavam as asas, e o oco ocupava os cantos
da casa na receosa e profunda mudez de tudo — até os pratos se silenciavam
na cozinha —, ela lhe visitava. Entre os presentes, mãos postas em
oração, disfarçando-se entre
as mulheres e moças, mostrava-lhe uma outra paisagem, sem casebre, sem a
enorme laranja que brilhava. Apenas um extenso campo, verde e nu, que se
estendia frio, infinitamente. Esquivava-se quando ela lhe dava a benção,
cisne agitado formando ondas em um lago calmo, e sentia em seus olhinhos
miudinhos e verdes, comportados dentro das pequenas rugas que formavam o
rosto, a raivosa desaprovação. Ia embora magoada, pegando carona em seu
último gemido de febre, e a deixava aliviada, o quarto novamente
silencioso e fresco. O claro e escuro se sucediam lentos, através da
janela entreaberta. Às vezes a imagem de sonho, aquele casebre ao longe
que ninguém via, aquela velha que passava e ninguém notava, e o oco
aumentando em sua garganta, trazendo sobre suas costelas a dor de mil
algozes. A enorme laranja invadindo seu quarto e esquentando suas pernas.
In-su-por-tá-vel. Nesses momentos ela mais aparecia. Braços estendidos
mostrando o campo claro e limpo. Decidiu, quando o peito mais pesava,
aceitar a ajuda da velhinha, sua bênção misteriosa. Levava junto consigo
seus amuletos, suas coisas mais queridas. Seus passos eram pequenos, suas
pernas curtas. Não sentia medo da mata fechada, que mal deixava entrar os
raios amarelos, do caminho escorregadio, de folhas mortas. No claro e
escuro formado pelas clareiras e pelas árvores gigantescas que se dobravam
ao vento e se lançavam ao céu, em um balé fantasmagórico, ela criava
imagens que nunca imaginara. Às vezes parava pelo caminho, pensando ter
encontrado ninhos de passarinho, descobria ninhos de cobras. Não os
destruía, se afastava e seguia seu destino, errava os atalhos, perseguia
borboletas, brincava com coelhos e esquilos, o coração saltitando de medo
e alegria, como se devem saltitar os corações. Depois de muitas horas,
começou a sentir cheiros e sensações que nunca experimentara. Sua
temperatura se elevara, a excitação percorria seu corpo, desde a planta
dos pés à raiz dos cabelos. Então a viu a sua frente, braço estendido em
direção à enorme laranja que já se escondia, indicando-lhe a direção. Não
lutou, tocou seus amuletos, chorou um choro sentido, mas aliviado.
Descobriria o segredo que se escondia ali. Suas pernas continuavam em
direção ao sol. A velha o destampou, como pote, que ele era, com seus
braços enormes, e a empurrou para dentro dele, no momento em que ele se
apagava. A chaminé fabricou névoa durante muitos meses, e o inverno
continuou pairando sobre a casa da menina que se fora, primavera
afora.
misericórdia Hoje,
faz sete dias que consegui esse novo servicinho. Quero tudo muito limpo,
disse a dona, do alto de uns sapatos bonitos como eu nunca vi, e
continuou, vê se apaga qualquer rastro de sujeira, não vai deixar nenhuma
marca tua, as digitais, que no final quem fica malvista sou eu, você sabe.
Depois, talvez para não me deixar sem graça, contou uma história da mãe
dela, de que ninguém elogia um ambiente limpo, mas experimente um dia
esquecer algo fora do lugar, descuidar de uma mancha mais resistente para
que você logo seja acusada. E eu, dona, comigo é limpeza, eu trabalho
nisso por gosto, viu?, faço a coisa como se fosse pra mim
mesma. O
que ela não sabe é que desde menina eu tomei gosto pela limpeza, a rotina
de lavar as roupas do pai com sabão de cinza, procurar as nódoas
vermelhas, sangüíneas, e dar-lhes cabo com o esfregão. Arear o piso sempre
gotejado, os utensílios, os baldes eviscerados, curtir as peles, retirar
qualquer traço de vida, torná-las couro. Assim a vida foi me endurecendo.
Levei
cinco dias para elaborar o meu plano de trabalho. Nesse ramo não dá para
fazer as coisas assim de supetão, levantar o tapete e simplesmente ir
jogando a sujeira toda ali, é preciso muita calma, conhecer o ambiente, o
inimigo. Até agora, vi a dona apenas duas vezes. Na primeira, acertamos as
condições e na segunda, hoje, recebi o pagamento adiantado, sim, nada mais
justo para alguém que como eu faz o trabalho sujo. Ela concordou. O
marido da dona é um homem bonito, sei disso pelas fotografias, várias. Tem
foto dele de tudo que é jeito, com ela, sem ela, até retrato em branco e
preto que hoje em dia é coisa grã-fina. Gente estranha. Eu gosto tanto das
cores, do vermelho... mas eles gostam mesmo é das coisas sem sabor, comem
a carne sem o sebo, os coitados. Vai ver, a dona me contratou para fugir
da rotina, ter tempo pras coisas dela. Lá
vem ele, o marido da dona, sem a dona, com uma mulher que não estava nas
fotografias. Desembainho a Remington, herança do velho, e acelero o passo,
determinada, profissionalismo é o que não me falta. O ruído seco, uma...
duas... Ele só tem tempo de balbuciar um nome feminino, mas eu não escuto
nada além dos estampidos... três vezes, sem engasgar, no coração. As
pessoas correm e gritam, mas eu não escuto. Como é boa a sensação de dever cumprido. Ana
Ramiro (São
Paulo, 1972) é poeta, ensaísta e tem se arriscado na prosa. Publicou dois
livros (Menina-poesia,
1999; Desejos
de Gaia,
2007) e tem outro inédito. Participou da antologia 8
femmes (2007)
e
Antologia
de poesia brasileira do início do terceiro milênio
(2008), lançada em Portugal. Edita o blogue Folhas de
Girapemba e tem poemas, ensaios e traduções
publicados em revistas e sites literários (Zunái, Germina, Grumo, Coyote).
Reside em Brasília.
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