|
edição 43 | dezembro de
2010
[sob o heterônimo Dora Terra]
do
que pode a pouca idade I
Um
fato absoluto: o trinco grande de trancar o portão. O trinco absoluto:
ergue-se a alça, move-se o trinco para o lado esquerdo, baixa-se a alça.
"Tem que ser feito com barulho, se não, não tranca", não assemelha que
trancou. Fez mais duas ou três vezes pra assemelhar que trancou. Fez mais
oito ou nove por causa do barulho "tem que ser seco, bravo, não alto, nem
baixo, se não, não é trinco", não assemelha que trancou. "Daqui do portão
praí, hoje, o caminho dá prum livro!", socou o cadeado de uma única vez,
Papaiz, "agora vê se não é trinco".
Dali
do portão praqui, hoje, o caminho era essa estadia. "Não pi-se na gra-ma.
E se ela gosta? Tem mulher que gosta!", ela devia não envelhecer, "o chão
é que precisa gostar, coitado! Eu, não. Vê se tenho cara de chão!", uma
elegia absoluta: o chão deveria envelhecer sem ela, antes, menos ela devia
conter tempo, o resto que corra esmorecendo, a parede encostada nela,
menos o tempo devia contê-la. "o cadeado deixa a idade entrar?". Papaiz. O
cadeado que o resista.
Dali
do portão praqui, hoje, o tudo já havia acontecido, perdera-se notícia, já
se havia a vida passado. Quando chegou aqui perto, fez-me abaixar, era
ainda uma coisa pequena, alcancei-a com o ouvido "agora o senhor vai lá e
vê se não é um trinco".
Fora
da cabeça, tudo era pequenino. Tudo não terminava.
do
que pode a pouca idade II
"O
senhor vê se eu tenho cara de besta. Faltou o cachorro verde aqui, do lado
direito do potinho da esquerda e do lado esquerdo do potinho da direita",
reiterava a ordem dos potinhos. Os pés estavam alinhados, descalços,
irremovíveis. Os pés esticavam-se, alcançava a estante, os potinhos
"faltou o cachorro verde", reiterava a ordem dos livros. O cachorro verde
não existia, "então faltou o cachorro verde no
mundo".
Nada
faltava ao mundo.
A
esta altura, a estante desacatara, faltara-lhe tudo num susto sobre o
chão. Os pés nem se trocaram de lugar, nem se abismaram, era sabido que
viria tudo quedar: a ausência era grande do
cachorro.
"Agora
vê se com o cachorro isso acontecia", reiterou a ordem do
mundo.
do
que pode a pouca idade III
De
manias cheia, tinha método, de primeiro se puxa, assim, essa cortina,
depois mede caminho ao interruptor, apaga-se, só no último, a última luz.
Só mais ninguém não via, ela agora sem contorno "agora que eu não tenho
contorno, uhááá, eu sou qualquer coisa!", só mais ninguém não via, em todo
objeto ela se transformara. Não encostava em si mesma pra não perder a
linha do desenho, o tato era burro, cego no escuro. Só a visão que era
astuta, que ela vinha inventar "vê se eu não sou uma maleta roxa com um
código de barras borrado? Se o senhor não vê, não pode me enganar que é
mentira" e a sua alça pesava essa realidade intocável: e se ela fosse sem
pensamento, era capaz de virar a coisa que achava. "cego não tem contorno?
Pode ser tudo?", mas a gente via o cego, quem estraga a fantasia dele
somos nós, "nós nada! Bobo da gente!".
Cansou-se
de ser coisas quando caiu de cansada, depois da luz acesa, ela ainda era
uma coisa pequena. Não perdera o formato, as cores estavam
suas.
Ainda
antes um segundo do pacto com o sono "agora o senhor vê se eu preciso ou
não sou um baú".
Fora das pálpebras, tudo era de mentira. Tudo não contornava.
![]() conto-colar "suicídio", de adriana
versiani
gladíolos, anéis,
partilha
Mamãe
está sentada ao lado do espelho. Penduricalhos sem valor roçam-lhe as
ancas na seda que a criada estica sobre o banquinho de veludo. Encaracola
os cabelos o chinó sem guerra e sem vício, acaricia o escapulário entre os
seios onde pendem borlas cor de vinho do decote, babados. Um cheiro de
ópio irisa as narinas de mamãe. Lembranças da guerra restam agora no
marinheiro refestelado na alcova à meia luz, inner stage, a delícia dos olhos
que toca seu corpo em meio à fumaça.
Ontem
pela manhã, de seu inventário o amanuense fez constar primeiramente:
1
colar de ouro de sobre opa, outro colar de ouro de sobre opa, outro colar
de ouro de garganta de ponta que tem 2 balaifes e grossas, outro colar de
ouro de garganta com pendente que tem 1 diamante, 11 rubis e 11 pérolas
grossas, outro colar de ouro de garganta com arguanéis e esmaltes, 1
cadeia de ouro de garganta que tem sessenta e 4 cristais, 1 cadeia de ouro
de sobre opa, 1 joia de ouro que tem 1 diamante, 1 rubi e 2 pérolas
grossas, 8 anéis de ouro de grandes rubis, 5 anéis de ouro de grandes
rubis, 17 anéis de ouro de bons rubis, diamantes e esmeraldas, 3 crespinas
grandes de felpa de ouro fiado, outras 3 crespinas de ouro fiado de lavor
de flores, 1 crespina de ouro tirado por fieira e de prata com 162
pérolas. 2 crespinas de ouro fiado e de seda, 5 crespinas de ouro fiado e
de seda. 1 fio de ouro fieira que tem 22 pérolas muito grossas, outro fio
que tem 68 pérolas grossas.
22
toucas, 37 enxaravias de todas as cores, 8 espelhos de âmbar, 12 espelhos
da Alemanha, 31 pentes, 3 pentes de fazer cordões, 27 meadas de seda, 16
meadas de seda, uma soma grande de algodão, 6 pares de chapins dourados, 1
opa de brocado de rico carmesim, 1 opa de brocado verde rico, 3 cotas dos
ditos brocados, 1 opa de veludo carmesim aveludado.
Outra
opa de veludo preto, outra opa de veludo roxo, outra opa de veludo verde
de tércio pelo, outra opa de veludo pardo, 1 cota de veludo roxo, outra
cota de veludo carmesim, outra cota de veludo preto, outra cota de veludo
alaranjado, outra cota de veludo verde.
Outra
opa de pano encarnado, 6 cotas de panos finos de lã, 6 fraldilhas de panos
finos de lã, 1 manto de veludo preto, um mantão, 1 tabardo, 1 funda e
almofada para sela de veludo preto, 1 camisa grande mourisca, 3 camisas
brosladas de ouro, 18 camisas de lenço da Holanda, 34 varas de lenço da
Holanda, 22 varas de lenço francês, 12 peças de cordões, 6 peças de fitas.
Uma
vestimenta de brocado carmesim, outra vestimenta de cetim aveludado
carmesim, 2 sobre-pelizes de lenço francês, um pano de cetim carmesim, 8
cotas de cetim aveludado, 7 opas de escarlate, 4 crespinas de ouro fiado e
8 crespinas de ouro fiado.
![]() 11 poemas
cruz
credo
perco
o sono
sinto
medo
pisco
o olho
fecho
o cenho
muito
escuro
tudo
preto
eu
campeio
pelo
quarto
acho
um terço
pendurado
bem
no meio
do
pescoço
da
mula sem cabaço
(avemariacheiadegraçaosenhoréconvoscobenditasoisen
treasmulheresbenditoéofrutodovossoventrejesussanta
mariamãededeusrogaipornóspecadoresagoraenahoragá)
gatunos
alguns
agem no escuro
roubam
objetos leves
outros
à luz do dia
assaltam
o erário público
reza
de sétimo dia
de
mim não sabes metade
nenhum
terço
e
no escuro do quarto
onde
pensas que me tens
requinto-me
:
amores ao cesto
ácido
uns
ganham presentes
outros
ausências
enquanto
a lua flutua
o
luar penetra entre as persianas
listra
a cama o lençol as fronhas
mescla
as paredes
tua
ausência morde-me o pescoço
deixa
em minha pele a digital do frio
o
roxo dos carimbos
estrelada
a
noite mastiga o escuro
e
cospe as sementes
miragem
terrível
amar as sombras
os
fantasmas as ausências
estender
os braços
inutil_mente
olheiras
fiz
planos e orçamentos
levantei
gastos e custos
abri
o cofre a gaveta
juntei
moedas miúdos
contei
o pouco dinheiro
fiquei
de lado de bruços
rabisquei
o travesseiro
as
paredes teto tudo
virei
a lua do avesso
medi
pesei que absurdo
dormi
a noite inteirinha
não
tive paz um minuto
púbere
meu
pezinho de limão
nem
ainda adolesceu
cobriu-se
de espinhos
será
que vai entender
quando
o corpo pequenino
produzir
acidez?
medição
meço
o que faço com a régua do horizonte
e
tudo fica tão pequeno que os erros
não
me massacram
poeminha
um
barquinho na enxurrada
e
a poesia
nada
![]()
|