edição 43 | dezembro de 2010
temas: escuro | ausência | miudezas

3 contos

carolina caetano

[sob o heterônimo Dora Terra]

 

 

do que pode a pouca idade I

 

Um fato absoluto: o trinco grande de trancar o portão. O trinco absoluto: ergue-se a alça, move-se o trinco para o lado esquerdo, baixa-se a alça. "Tem que ser feito com barulho, se não, não tranca", não assemelha que trancou. Fez mais duas ou três vezes pra assemelhar que trancou. Fez mais oito ou nove por causa do barulho "tem que ser seco, bravo, não alto, nem baixo, se não, não é trinco", não assemelha que trancou. "Daqui do portão praí, hoje, o caminho dá prum livro!", socou o cadeado de uma única vez, Papaiz, "agora vê se não é trinco".

Dali do portão praqui, hoje, o caminho era essa estadia. "Não pi-se na gra-ma. E se ela gosta? Tem mulher que gosta!", ela devia não envelhecer, "o chão é que precisa gostar, coitado! Eu, não. Vê se tenho cara de chão!", uma elegia absoluta: o chão deveria envelhecer sem ela, antes, menos ela devia conter tempo, o resto que corra esmorecendo, a parede encostada nela, menos o tempo devia contê-la. "o cadeado deixa a idade entrar?". Papaiz. O cadeado que o resista.

Dali do portão praqui, hoje, o tudo já havia acontecido, perdera-se notícia, já se havia a vida passado. Quando chegou aqui perto, fez-me abaixar, era ainda uma coisa pequena, alcancei-a com o ouvido "agora o senhor vai lá e vê se não é um trinco".

Fora da cabeça, tudo era pequenino. Tudo não terminava.

 

 

 

do que pode a pouca idade II

 

"O senhor vê se eu tenho cara de besta. Faltou o cachorro verde aqui, do lado direito do potinho da esquerda e do lado esquerdo do potinho da direita", reiterava a ordem dos potinhos. Os pés estavam alinhados, descalços, irremovíveis. Os pés esticavam-se, alcançava a estante, os potinhos "faltou o cachorro verde", reiterava a ordem dos livros. O cachorro verde não existia, "então faltou o cachorro verde no mundo".

Nada faltava ao mundo.

A esta altura, a estante desacatara, faltara-lhe tudo num susto sobre o chão. Os pés nem se trocaram de lugar, nem se abismaram, era sabido que viria tudo quedar: a ausência era grande do cachorro.

"Agora vê se com o cachorro isso acontecia", reiterou a ordem do mundo.

 

 

 

do que pode a pouca idade III

 

De manias cheia, tinha método, de primeiro se puxa, assim, essa cortina, depois mede caminho ao interruptor, apaga-se, só no último, a última luz. Só mais ninguém não via, ela agora sem contorno "agora que eu não tenho contorno, uhááá, eu sou qualquer coisa!", só mais ninguém não via, em todo objeto ela se transformara. Não encostava em si mesma pra não perder a linha do desenho, o tato era burro, cego no escuro. Só a visão que era astuta, que ela vinha inventar "vê se eu não sou uma maleta roxa com um código de barras borrado? Se o senhor não vê, não pode me enganar que é mentira" e a sua alça pesava essa realidade intocável: e se ela fosse sem pensamento, era capaz de virar a coisa que achava. "cego não tem contorno? Pode ser tudo?", mas a gente via o cego, quem estraga a fantasia dele somos nós, "nós nada! Bobo da gente!".

Cansou-se de ser coisas quando caiu de cansada, depois da luz acesa, ela ainda era uma coisa pequena. Não perdera o formato, as cores estavam suas.

Ainda antes um segundo do pacto com o sono "agora o senhor vê se eu preciso ou não sou um baú".

Fora das pálpebras, tudo era de mentira. Tudo não contornava.

 
  

conto-colar "suicídio", de adriana versiani

 

gladíolos, anéis, partilha
jussara salazar

 

Mamãe está sentada ao lado do espelho. Penduricalhos sem valor roçam-lhe as ancas na seda que a criada estica sobre o banquinho de veludo. Encaracola os cabelos o chinó sem guerra e sem vício, acaricia o escapulário entre os seios onde pendem borlas cor de vinho do decote, babados. Um cheiro de ópio irisa as narinas de mamãe. Lembranças da guerra restam agora no marinheiro refestelado na alcova à meia luz, inner stage, a delícia dos olhos que toca seu corpo em meio à fumaça.

Ontem pela manhã, de seu inventário o amanuense fez constar primeiramente:

1 colar de ouro de sobre opa, outro colar de ouro de sobre opa, outro colar de ouro de garganta de ponta que tem 2 balaifes e grossas, outro colar de ouro de garganta com pendente que tem 1 diamante, 11 rubis e 11 pérolas grossas, outro colar de ouro de garganta com arguanéis e esmaltes, 1 cadeia de ouro de garganta que tem sessenta e 4 cristais, 1 cadeia de ouro de sobre opa, 1 joia de ouro que tem 1 diamante, 1 rubi e 2 pérolas grossas, 8 anéis de ouro de grandes rubis, 5 anéis de ouro de grandes rubis, 17 anéis de ouro de bons rubis, diamantes e esmeraldas, 3 crespinas grandes de felpa de ouro fiado, outras 3 crespinas de ouro fiado de lavor de flores, 1 crespina de ouro tirado por fieira e de prata com 162 pérolas. 2 crespinas de ouro fiado e de seda, 5 crespinas de ouro fiado e de seda. 1 fio de ouro fieira que tem 22 pérolas muito grossas, outro fio que tem 68 pérolas grossas.

22 toucas, 37 enxaravias de todas as cores, 8 espelhos de âmbar, 12 espelhos da Alemanha, 31 pentes, 3 pentes de fazer cordões, 27 meadas de seda, 16 meadas de seda, uma soma grande de algodão, 6 pares de chapins dourados, 1 opa de brocado de rico carmesim, 1 opa de brocado verde rico, 3 cotas dos ditos brocados, 1 opa de veludo carmesim aveludado.

Outra opa de veludo preto, outra opa de veludo roxo, outra opa de veludo verde de tércio pelo, outra opa de veludo pardo, 1 cota de veludo roxo, outra cota de veludo carmesim, outra cota de veludo preto, outra cota de veludo alaranjado, outra cota de veludo verde.

Outra opa de pano encarnado, 6 cotas de panos finos de lã, 6 fraldilhas de panos finos de lã, 1 manto de veludo preto, um mantão, 1 tabardo, 1 funda e almofada para sela de veludo preto, 1 camisa grande mourisca, 3 camisas brosladas de ouro, 18 camisas de lenço da Holanda, 34 varas de lenço da Holanda, 22 varas de lenço francês, 12 peças de cordões, 6 peças de fitas.

Uma vestimenta de brocado carmesim, outra vestimenta de cetim aveludado carmesim, 2 sobre-pelizes de lenço francês, um pano de cetim carmesim, 8 cotas de cetim aveludado, 7 opas de escarlate, 4 crespinas de ouro fiado e 8 crespinas de ouro fiado.

 
  

11 poemas
líria porto

 

cruz credo

 

perco o sono

sinto medo

pisco o olho

fecho o cenho

muito escuro

tudo preto

eu campeio

pelo quarto

acho um terço

pendurado

bem no meio

do pescoço

da mula sem cabaço

 

(avemariacheiadegraçaosenhoréconvoscobenditasoisen

treasmulheresbenditoéofrutodovossoventrejesussanta

mariamãededeusrogaipornóspecadoresagoraenahoragá)

 

 

 

 

gatunos

 

alguns agem no escuro

roubam objetos leves

outros à luz do dia

assaltam o erário público

 

 

 

 

reza de sétimo dia

 

de mim não sabes metade

nenhum terço

e no escuro do quarto

onde pensas que me tens

requinto-me

 

: amores ao cesto

 

 

 

 

ácido

 

uns ganham presentes

outros ausências

 

 

 

 

enquanto a lua flutua

 

o luar penetra entre as persianas

listra a cama o lençol as fronhas

mescla as paredes

 

tua ausência morde-me o pescoço

deixa em minha pele a digital do frio

o roxo dos carimbos

 

 

 

 

estrelada

 

a noite mastiga o escuro

e cospe as sementes

 

 

 

 

miragem

 

terrível amar as sombras

os fantasmas as ausências

 

estender os braços

inutil_mente

 

 

 

 

olheiras

 

fiz planos e orçamentos

levantei gastos e custos

 

abri o cofre a gaveta

juntei moedas miúdos

 

contei o pouco dinheiro

fiquei de lado de bruços

 

rabisquei o travesseiro

as paredes teto tudo

 

virei a lua do avesso

medi pesei que absurdo

 

dormi a noite inteirinha

não tive paz um minuto

 

 

 

 

púbere

 

meu pezinho de limão

nem ainda adolesceu

cobriu-se de espinhos

 

será que vai entender

quando o corpo pequenino

produzir acidez?

 

 

 

 

medição

 

meço o que faço com a régua do horizonte

e tudo fica tão pequeno que os erros

não me massacram

 

 

 

 

poeminha

 

um barquinho na enxurrada

e a poesia

          nada

 

 

 

  

 

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