edição 39 | março de 2010
temas:  recomeço | platonismo | chuva

 

3 poemas, 1 conto
carolina caetano

 

disserto

 

Mas ainda solucei antigas

de nós ideias em nó

arquiteturas da língua sobre a língua

a que falo e a que engulo

em remendo de rachadura sob fita branca

adesivos sobre a pele espremida

quando estive o quanto estive relembrada

havia um corte em seus cabelos

e o novo ao velho voltado

havia

havia tanto de mim em mim

que de mim abarrotada e vazia

dei-me conta do tanto que havia

e que de mim e ti desapegada

havia o que se dizer do nada

e nada mais me dizia

então que de mim me fazia

aquela toda hemorragia

das plantas em minha sala

Reguei-nos até de seu fim

que fim deu de dar em mim

a minha falta de mágoas

Deixasse ao menos rancor

e saboreasse eu dissabor

mas de mim a mim disse nada

Tão esteve o tudo resolvido

que continuara a eu sentada.

 

 

 

de dia

 

O dia nasce sorrindo

é de todo dia

não de ser só lindo

ser limpo

ser gente

o dia nasce sorrindo

é do dia

é de agarrar forças

seus dentes.

 

 

 

pro sul

 

Restou a gaveta de Cairo com duas meias dentro. Eu não consegui ainda desarrumar, arrumar, a gaveta, as meias — dois pares emboladinhos — como quando criança. Eu os embolei, afinal. Os papéis de faculdade eu tenho que enviá-los antes do 27 de algum mês. Se tivesse morrido esse filho. Dois morreram, este foi embora. Pro Sul. Se desfez das meias como se fosse ao nordeste, confirmando juízo. Agora nem sei quanto de couve compro, embora ele não comesse. Mas eu jogava fora, agora não, não faz sentido jogar comida fora quando se mora só. Três gavetas vazias. Ridículo enterrar dois filhos e não ter coragem de abrir gavetas. Quanto ruído me fora embora. Se os símbolos fossem só dos santos eu só rezaria mesmo, mas tem as cordas vocais do que não mais reclamar, tem o DVD que não me respeita, tem o telefone que é pra ele. E tem o telefone, ainda. É mais solitário ver uma arma de comunicação à minha frente, na mesinha, concreta, muda. É como puxar assunto com gente doente. E tem o telefone. — Oswaldo? É Lúcia. Tem duas meias aqui que não me servirão, se precisar. Poderia vir aqui urgentemente pra eu calçá-las em você? Pode ficar frio e eu desperdiçá-las. E você pode dormir aqui e me devolvê-las quando sair.

 

 

 

póstumo I

 

Meu corpo

quando foi embora

Minha alma

era objeto entendível

pois póstumo

A única coisa entre as coisas que são divinas

Entendível.

Porque gente quando morre

é coisa entre as coisas que gente fez

Pois imagem.

 

O meu corpo quando foi embora

foi à terra de que eu mesma cultivei

Dos rastelos os meus dedos

Quando irão brotar as minhas carnes em meus cultivos

As minhas folhas, os meus pelos.

 

Mas era maio aqui em Minas

E eu não chovo.

 

  

 

2 poemas
cida pedrosa

 

elipse

 

finco a chuva

entre tuas pernas

e espanto o estio

 

da pele fogem relâmpagos

da boca saltam trovões

nos olhos pairam coriscos

e um céu sertanejo

 

sulco a terra

neste plano horizontal

levemente oblíquo

 

caminho abissal

semeadura de contas

folhagem

 

teu verso coruscante

aflige ensandece espanta

 

o inverno se faz

em uma tempestade

quadrada

ao amor é dada

a calha

 

ah! quem sabe agora

o orvalho se move

e nos devolve as espigas

que colhemos durante a noite

 

 

 

tríade

 

quando chove

o verde em chamas

abala o mundo

 

o sol tímido recua

dando lugar

à euforia dos viventes

 

gotas de terra

gotas de chuva

gotas de sol

 

tríade da luz

e do afazer

 

o  sertão descansa

apaziguado

 

 

na deriva
florbela de itamambuca

 

essa enchente que deu me tirou tudo

geladeira, cochão, sala distar

corri num orelião que tem no bar

fui lá traz de uma ajuda, e dava mudo

 

nem quem tava no morro foi sortudo

o barranco enterrou fundo no mar

perdi meu filho, gente, perdi tudo

tô a deriva e não sei, mas vou voltar

 

agora somos 3 na mesma igara

são pedro, nem pra dar isplicação

dona emanjá? nem pra me olhar na cara

 

agua pra tudo quanto é direção

nesse rio que levou as minha vara

e agora pra pescar, gente, é com as mão

 

 

 
 
 

1 poema
jane sprenger bodnar

 

todo risco

vale a luz de vaga-lumes

sinalizando rodovias

canteiros de estrelas nos acostamentos

único acesso à chuva de astros

aos caprichos da primavera

a velocidade é cega

orquestra regida

por uma conspiração de luz.

 

 

 

  

 

antônio
julya vasconcelos

 

Eu era uma

e terminava onde terminam minhas mãos e cabelos e planta dos pés.

e aninhava quando em vez uma mariposa, um passarinho, uma gata da qual tiraram o útero.

 

Mas ontem aparei um corpo frouxo que me fecha e abre olhos leeentamente,

feixe de água doce, bem doce, mel de abelhas,

hidromel onde se pode mergulhar e ver os pés feito um pequeno polvo alerta.

platônico lábio que diz milhares de lararás, lirirís.

lhasa, yupanqui ao fundo llorando.

 

(eu)começo: duerme negrito.

 

 

poema para uma menina antiga
jussara salazar

 

recolhe a chuva para

que não fuja

com o tempo

amansa a chuva

para que não chore

sobre o mundo

        enchente

desmanche a pedra

inunde a mata

mergulhe até o fundo

por isso abraça a chuva

para que o instante

surja

e cada grão da terra

sem nenhuma guerra

seja flor e ouro

poro água corpo

 

 

 

  

 

temas | escritoras | ex-suicidas | convidadas | notícias | créditoselos | >>>