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edição 39 | março de
2010
3 poemas, 1
conto
disserto Mas
ainda solucei antigas de
nós ideias em nó arquiteturas
da língua sobre a língua a
que falo e a que engulo em
remendo de rachadura sob fita branca adesivos
sobre a pele espremida quando
estive o quanto estive relembrada havia
um corte em seus cabelos e
o novo ao velho voltado havia havia
tanto de mim em mim que
de mim abarrotada e vazia dei-me
conta do tanto que havia e
que de mim e ti desapegada havia
o que se dizer do nada e
nada mais me dizia então
que de mim me fazia aquela
toda hemorragia das
plantas em minha sala Reguei-nos
até de seu fim que
fim deu de dar em mim a
minha falta de mágoas Deixasse
ao menos rancor e
saboreasse eu dissabor mas
de mim a mim disse nada Tão
esteve o tudo resolvido que
continuara a eu sentada. de
dia O
dia nasce sorrindo é
de todo dia não
de ser só lindo ser
limpo ser
gente o
dia nasce sorrindo é
do dia é
de agarrar forças seus
dentes. pro
sul Restou
a gaveta de Cairo com duas meias dentro. Eu não consegui ainda desarrumar,
arrumar, a gaveta, as meias — dois pares emboladinhos — como quando
criança. Eu os embolei, afinal. Os papéis de faculdade eu tenho que
enviá-los antes do 27 de algum mês. Se tivesse morrido esse filho. Dois
morreram, este foi embora. Pro Sul. Se desfez das meias como se fosse ao
nordeste, confirmando juízo. Agora nem sei quanto de couve compro, embora
ele não comesse. Mas eu jogava fora, agora não, não faz sentido jogar
comida fora quando se mora só. Três gavetas vazias. Ridículo enterrar dois
filhos e não ter coragem de abrir gavetas. Quanto ruído me fora embora. Se
os símbolos fossem só dos santos eu só rezaria mesmo, mas tem as cordas
vocais do que não mais reclamar, tem o DVD que não me respeita, tem o
telefone que é pra ele. E tem o telefone, ainda. É mais solitário ver uma
arma de comunicação à minha frente, na mesinha, concreta, muda. É como
puxar assunto com gente doente. E tem o telefone. — Oswaldo? É Lúcia. Tem
duas meias aqui que não me servirão, se precisar. Poderia vir aqui
urgentemente pra eu calçá-las em você? Pode ficar frio e eu
desperdiçá-las. E você pode dormir aqui e me devolvê-las quando
sair. póstumo
I Meu
corpo quando
foi embora Minha
alma era
objeto entendível pois
póstumo A
única coisa entre as coisas que são divinas Entendível. Porque
gente quando morre é
coisa entre as coisas que gente fez Pois
imagem. O
meu corpo quando foi embora foi
à terra de que eu mesma cultivei Dos
rastelos os meus dedos Quando
irão brotar as minhas carnes em meus cultivos As
minhas folhas, os meus pelos. Mas
era maio aqui em Minas E eu não chovo. ![]()
2 poemas
elipse finco
a chuva entre
tuas pernas e
espanto o estio da
pele fogem relâmpagos da
boca saltam trovões nos
olhos pairam coriscos e
um céu sertanejo sulco
a terra neste
plano horizontal levemente
oblíquo caminho
abissal semeadura
de contas folhagem teu
verso coruscante aflige
ensandece espanta o
inverno se faz em
uma tempestade quadrada ao
amor é dada a
calha ah!
quem sabe agora o
orvalho se move e
nos devolve as espigas que
colhemos durante a noite tríade quando
chove o
verde em chamas abala
o mundo o
sol tímido recua dando
lugar à
euforia dos viventes gotas
de terra gotas
de chuva gotas
de sol tríade
da luz e
do afazer o sertão
descansa apaziguado
na
deriva
essa
enchente que deu me tirou tudo geladeira,
cochão, sala distar corri
num orelião que tem no bar fui
lá traz de uma ajuda, e dava mudo nem
quem tava no morro foi sortudo o
barranco enterrou fundo no mar perdi
meu filho, gente, perdi tudo tô
a deriva e não sei, mas vou voltar agora
somos 3 na mesma igara são
pedro, nem pra dar isplicação dona
emanjá? nem pra me olhar na cara agua
pra tudo quanto é direção nesse
rio que levou as minha vara e
agora pra pescar, gente, é com as mão ![]() 1 poema todo
risco vale
a luz de vaga-lumes sinalizando
rodovias canteiros
de estrelas nos acostamentos único
acesso à chuva de astros aos
caprichos da primavera a
velocidade é cega orquestra
regida por
uma conspiração de luz.
antônio
Eu
era uma e
terminava onde terminam minhas mãos e cabelos e planta dos
pés. e
aninhava quando em vez uma mariposa, um passarinho, uma gata da qual
tiraram o útero. Mas
ontem aparei um corpo frouxo que me fecha e abre olhos leeentamente,
feixe
de água doce, bem doce, mel de abelhas, hidromel
onde se pode mergulhar e ver os pés feito um pequeno polvo
alerta. platônico
lábio que diz milhares de lararás, lirirís. lhasa,
yupanqui ao fundo llorando. (eu)começo:
duerme negrito.
poema para uma menina
antiga
recolhe
a chuva para que
não fuja com
o tempo amansa
a chuva para
que não chore sobre
o mundo
enchente desmanche
a pedra inunde
a mata mergulhe
até o fundo por
isso abraça a chuva para
que o instante surja e
cada grão da terra sem
nenhuma guerra seja
flor e ouro poro
água corpo
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