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edição 15
| abril de 2007
1 conto um
gole
Coloco de volta a calcinha e
saio dali, sem olhar para a cara dele. A festa acabou e preciso encontrar
o meu marido. Na maioria das vezes, vou direto para o bar. Mas, pelo
adiantado da hora, é mais fácil encontrá-lo caído em um canto qualquer.
Recolho os cacos e voltamos
para casa. No início, eu gritava e
fazia as malas. A seguir, veio a tristeza
profunda. Depois, a fase da vingança,
em que descontava a minha raiva por suas bebedeiras, trepando com
desconhecidos. Hoje, evoluí na minha
catarse, escolhendo como objeto o pau do seu melhor amigo.
Olho para o meu marido deitado sobre a cama, ainda vestido, babando sobre o lençol e não sinto nada. Vou dormir, pois amanhã é sábado: dia de praia, churrasco e muita cerveja.
súbito barra óbito
meu amor perdeu os dentes da frente não pode mais assobiar seu próprio uivo
meu amor perdeu todos os dentes não pode mastigar os cacos de vidro da dor.
cabeça de cavalo A estrada que a gente
percorre é aquela que a gente mesmo escolheu, nesta noite quente e sem lua
eu mesmo a escolhi sem querer escolher, é o homem mesmo que faz, que
escolhe seu destino, certo? Mas nada faz escolher o amor, não é mesmo? Não
sei, talvez sim, talvez não, eu acho mesmo que ele não tem escolha porque
se tivesse não se metia com a mulher errada, eu, por exemplo, estou nessa
estrada do inferno fugindo de uma, ou melhor, do marido dela, melhor
ainda, fugindo da morte a 110 km/hora, num carro fodido, cheio de
problemas, a cada ondulação ele estremece, a cada buraco ele geme, parece
até meu irmão de tão parecido que é comigo, eu também gemi quando vi as
ondulações dela, estremeci, e meu Deus, como eu gemi agarrado nela e agora
estou fodido e cheio de problemas, "se cuide, meu irmão", eu ouvia o motor
resmungar, "se cuide, esta noite pode ser a última noite da sua vida",
"vai ser nada, seu puto, será a primeira noite da minha vida", gritei para
abafar o som do motor; eu não era Benjamin nem ela Mrs. Robinson daquele
filme doido, A Primeira Noite de um
Homem, eu não acabara de sair da faculdade nem ela era a mãe da minha
namorada, nada parecido, eu era vendedor de peças de automóveis e já
passava dos cinqüenta e ela era a legítima esposa de um cliente importante
e já beirava os trinta; o cara era boa praça, grandão, gordo, contador de
piada, chopeiro, já pra lá de Marrakesh, setenta primaveras e com esse
cenário só podia dar merda, não acham? Pois bem, na noite que ele me levou
pra casa dele ela tava lá de shortinho e aquelas blusas na moda, bem
decotadas mostrando os seios, não vou perder o tempo tentando descrever o
monumento, mulher chave de cadeia, foi isso que pensei logo ao
cumprimentar ela e ele todo orgulhoso ao abraçar ela repetia sem cessar:
"o que acha da minha pombinha? O que acha da minha pombinha? O que
acha...", eu devia ter me mandado, dado uma desculpa qualquer, mas ela me
olhava com jeito jeito de promessa e fiquei, resultado, ele bebeu pacas e
adormeceu e eu e ela transamos ali mesmo na sala, no chão; o cara deu um
ronco arrasa quarteirão, abriu os olhos, nos olhou, eu de bunda de fora e
ela de pernas abertas, não deu pra segurar, gozei e rezei, ela me
empurrou, ficou de pé, gritou: "ai amor, ele me obrigou, me ameaçou, tem
um punhal, ele é um animal!", o cara deu um berro de elefante e... e... e
veio pra cima de mim, corri que nem lebre com as calças na mão, me joguei
no carro e agora cá estou, nessa estrada do inferno me mandando não sei
pra onde; vocês podiam pensar que era besteira, que com certeza não fora a
primeira vez que o figurão dera um flagra nela, que com certeza o corno
era manso, mas acontece que ele era o prefeito, podia me matar ali
mesmo, sumir com meu cadáver e assim por diante, tipo filme americano de
terceira categoria, portanto, pé na estrada... - animal na rodovia é uma
desgraça - falou o primeiro patrulheiro.
- e esse puto morreu com a
cabeça do cavalo enfiada no pára-brisa - respondeu o segundo, enquanto
examinava os documentos do morto.
canção pânica Mancha
momentânea cinzenta
penetrante no todo
circundante baixando
dolorosa antes da treva
total. Numa
panorâmica, num giro
radical o ser se entontece e
na condição
pânica faz o pelo
sinal. Prédios, carros,
praças, nada mais se
distingue antes da treva
total; matiz do
envelhece, augúrio de desgraça
ou (que o Anjo não se
vingue) o Eterno que
desce
definitivamente sem deus que o
desfaça? É pavorosa,
todavia, tristeza que
extravasa e arregala a
alma de si insipiente
sem outra moradia
que o grito que a
abrasa; valia
insustentável da terrena
agitação no seu descompassado
impulso, milênios
num átimo, que a
mancha num
rapto vibra no seu
pulso e agulha a
indagação: "Conhece e não
aceita, não provou e já
duvida, pensa a porta
suicida, mas é na relva que
deita; insulta o Vital e
o vulgo do modo dos
que fazem sangrar e
dos que
cospem; cose e descose dias
para guiar-se e o que
mesmo difícil ilumina
usa para cegar; plana
na vertical divina e
ama a linha horizontal
do mar; ou ao sal se
destina ou apodrece
a vinha nos tonéis do
lagar; o real que
rumina (os cartéis do ar)
no côncavo cristal
dos olhos, o que salva ou
perdoa? Quando
sonha que pousa na louça
da matéria ela
presta se esboroa.
Ouça, pobre teimoso, o
rigor da artéria é
cérebro e coração;
você que é vagaroso,
cala-te, espera e crê.
Assim como é, assim
vê". A mancha cinzenta
momentaneamente
parece respirar antes
da noite total, que
tosca e
violenta cai sem
anunciar, trava alma e
dente com seu gume
letal, mas no centro da
treva a lua vista
através da trincada
vidraça é o último lume da
graça, que ele ínvio e
de viés mira sem
resmungar, e tenta
respirá-la feito
planta a luz; mas no espaço
da sala alterca o luar:
"Ínvio e de viés?
Dobra-te! O que
deduz da dor e da
miséria
intrínseca ao seu estar?
Dobra-te! Aceitar não é
reduzir-se, aprenda - morre a
estrela para mais
brilhar em sua senda".
Preso entre dois pesos
não nota a manhã
palmilhando a casa
com sua solaridade sã,
no entanto deixa o
ser aceso
curvar-se ante o secreto
que finíssimo vaza
pelas brechas do
teto.
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