edição 20 | setembro de 2007
carta para antonia ou um poema de amor

 

ridículo
samantha silva
   

Escrevi um poema de amor

ridículo como todo poema

de amor.

 

Falava de voz e

mãos.

De luz dos olhos e

sonhos.

 

Falava de corpos quentes

de noites.

E de castelos e

ventos.

 

Ontem entreguei-o ao

destinatário.

 

Obrigado, disse

como se fosse apenas

um poema e não

um pedaço de mim.

 

Pensei em suicidar-me.

 

Mas como já passei da idade

matei o cujo

e joguei pela janela

o poema. 

 

 

carta de despedida
santa maria

a deus

há deus

adeus

 

 

uma carta para antonia
tereza yamashita
 

Primavera, setembro de 2007.

 

Aprendi a fazer vários tipos de envelope através do origami. A milenar arte oriental da dobradura do papel.

 

As dobras devem ser precisas, a concentração redobrada e a paciência cultivada.

 

Os dedos devem tocar o papel delicadamente, como se toca o corpo de quem se ama, com respeito e admiração.

 

Pensei em usar as duas artes, a do origami e a da caligrafia. Pensei em usar papel artesanal.

 

A ponta da pena tocando delicadamente a superfície do papel e fazendo com que a tinta penetre nas fibras. A tinta se espalhando lentamente, criando linhas, círculos e traços.

 

Formando palavras que ora apresentam um significado, ora outro.

 

Nunca escrevi um haicai, um poema ou uma carta de amor.

 

Agora Antonia vai pra longe, pra longe dos nossos olhos.

 

Vai conhecer outras pessoas, outra realidade, outros mundos. Vai escrever um romance.

 

Nosso lado mesquinho quer pedir, suplicar, implorar a ela que fique. Não podemos, cada um tem um caminho a seguir, o caminho que conquistou.

 

O nosso será esse, o das palavras e da saudade.

 

Vá, minha amiga, com a bênção dos deuses. Não se esqueça de nós. Estaremos aqui, torcendo, invejando e escrevendo.

 

Sua amiga suicida,

 

Tereza

 

 

 

 

 

 

 

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